Riqueza ambiental desconhecida: Estudo revela que Angola tem quatro vezes mais turfas do que se pensava e cresce alerta para a conservação das zonas húmidas
As terras altas de Angola podem esconder uma riqueza ambiental muito maior do que se estimava. Um novo estudo científico revela que o país possui pelo menos quatro vezes mais turfa do que anteriormente identificado, colocando milhares de quilómetros quadrados de zonas húmidas no centro das preocupações sobre conservação, segurança hídrica e desenvolvimento sustentável.
Publicado na revista científica Philosophical Transactions of the Royal Society B, o estudo apresenta o mais abrangente retrato produzido até agora sobre as potenciais turfeiras das terras altas de Angola e alerta para a necessidade de proteger estes ecossistemas perante o avanço da agricultura, a construção de infra-estruturas, a drenagem dos solos e os incêndios.
A investigação, realizada pela The Nature Conservancy, identificou milhares de quilómetros quadrados adicionais de potenciais turfeiras, ecossistemas considerados estratégicos pela sua capacidade de armazenar grandes quantidades de carbono, reter água e regular o fluxo dos rios.
Mais do que uma questão ambiental, a descoberta coloca Angola perante um desafio de gestão dos seus recursos naturais. As turfeiras desempenham um papel fundamental na regulação hídrica de extensas regiões da África Austral e contribuem para a manutenção dos sistemas fluviais que sustentam comunidades, actividades agrícolas, pesca e diversos sectores económicos.
O impacto ultrapassa as fronteiras angolanas. Parte das águas que nascem nas terras altas do país alimenta sistemas hidrográficos que se estendem por vários países da região, incluindo o Delta do Okavango, um dos mais importantes ecossistemas de água doce do continente africano.
Reservatórios naturais de água e carbono
Segundo o estudo, as zonas húmidas recentemente mapeadas funcionam como verdadeiros reservatórios naturais. Durante a estação chuvosa, os solos alagados armazenam água subterrânea, libertando-a gradualmente ao longo do ano.
Esse processo ajuda a manter o caudal dos rios durante a estação seca, contribuindo para a disponibilidade de água para as populações e para os ecossistemas situados a jusante.
Ao mesmo tempo, os solos permanentemente encharcados acumulam matéria orgânica e retêm carbono durante milhares de anos, transformando as turfeiras num importante mecanismo natural de armazenamento de carbono.
A destruição ou drenagem dessas áreas pode, por isso, provocar consequências ambientais significativas, ao mesmo tempo que ameaça a capacidade natural dos ecossistemas de armazenar água e carbono.
Desenvolvimento económico coloca novas pressões
A descoberta ganha particular relevância porque algumas das turfeiras identificadas estão localizadas em fundos de vales e junto de rios, precisamente em áreas onde a actividade agrícola tende a ser mais intensa.
Segundo a The Nature Conservancy, outras áreas encontram-se próximas de zonas previstas para grandes projectos de infra-estruturas, incluindo novas centrais hidroeléctricas, expansão da agricultura comercial e projectos associados ao Corredor do Lobito, uma das principais apostas de Angola para ligar as regiões mineiras do interior aos mercados internacionais através do Atlântico.
O desafio, segundo a investigação, passa por conciliar esses investimentos com a preservação dos ecossistemas que garantem a disponibilidade de água a médio e longo prazo.
A informação agora produzida poderá permitir às autoridades identificar previamente as áreas mais sensíveis e incorporar a conservação das turfeiras na planificação de projectos de agricultura, energia, estradas, mineração e outras infra-estruturas.
Angola pode redefinir prioridades de conservação
O estudo poderá igualmente servir de base para orientar o financiamento internacional destinado à conservação ambiental, permitindo concentrar recursos nas áreas consideradas mais importantes para a segurança hídrica, o armazenamento de carbono e a sobrevivência das comunidades locais.
A importância estratégica das descobertas estende-se também à Área de Conservação Transfronteiriça Kavango-Zambezi (KAZA), que reúne Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe numa área de cerca de 520 mil quilómetros quadrados.
Para os investigadores, compreender melhor onde estão localizadas as turfeiras angolanas é essencial não apenas para proteger a biodiversidade, mas também para garantir a gestão sustentável dos recursos hídricos partilhados pela região.
Comunidades no centro da conservação
A investigação defende ainda que a conservação não deve ser dissociada das populações que vivem nestes territórios. Em muitas zonas rurais, os ecossistemas húmidos são utilizados para agricultura, pesca, recolha de alimentos e outras actividades essenciais à sobrevivência das comunidades.
O mapeamento das turfeiras poderá, assim, fornecer às autoridades e organizações de conservação uma ferramenta para trabalhar directamente com as populações, criando mecanismos que permitam proteger os ecossistemas sem comprometer os meios de subsistência.
O que são turfeiras?
As turfeiras são zonas húmidas onde restos de plantas se acumulam durante milhares de anos devido à decomposição incompleta em solos saturados de água e com pouco oxigénio.
A elevada capacidade de retenção de água e carbono faz destes ecossistemas alguns dos mais importantes reservatórios naturais do planeta.
A nova estimativa sobre Angola aumenta, por isso, o peso da responsabilidade do país na conservação dos recursos hídricos da África Austral.
A descoberta científica transforma as terras altas angolanas num novo ponto de atenção para a conservação ambiental internacional e lança um desafio directo às políticas públicas: como desenvolver o território sem destruir os ecossistemas naturais que ajudam a garantir água, biodiversidade e estabilidade climática para Angola e para os países vizinhos.
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Romão de Jesus
Redactor do Elite Post · 26 de Agosto de 2026
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