Líder do Grupo Parlamentar da UNITA felicita Ernesto Bartolomeu e é alvo de críticas por crise de coerência dentro da oposição
Presidente do Grupo Parlamentar da UNITA é criticada por mensagem dirigida ao jornalista da TPA, num momento em que o partido mantém uma linha dura contra o Executivo e questiona o papel dos meios públicos na informação política
A presidente do Grupo Parlamentar da UNITA, Albertina Navita Ngolo, está a ser alvo de críticas nas redes sociais depois de ter dirigido uma mensagem pública de felicitações ao jornalista e pivô da TPA Ernesto Bartolomeu.
O gesto abriu um debate sobre a coerência entre o discurso político da dirigente da UNITA e a forma como se relaciona publicamente com uma das figuras mais conhecidas da televisão pública angolana.
A polémica ganhou força porque Navita Ngolo tem assumido, enquanto líder parlamentar da UNITA, uma posição de forte contestação ao funcionamento das instituições e à actuação do Executivo. Em Agosto, durante o balanço do quarto ano legislativo, afirmou que o Grupo Parlamentar da UNITA continuaria a exercer uma função “firme, responsável, propositiva, fiscalizadora e próxima dos cidadãos”.
Em Abril, a dirigente parlamentar também afirmou que a Assembleia Nacional e os tribunais estariam “reféns” do Presidente da República, defendendo que os deputados devem representar o povo, legislar e fiscalizar a acção governativa.
É precisamente neste contexto que a mensagem dirigida a Ernesto Bartolomeu passou a ser questionada por sectores críticos da oposição.
Para os críticos, a aproximação pública entre uma das principais figuras parlamentares da UNITA e o conhecido rosto da TPA levanta dúvidas sobre a consistência do discurso de confronto político do partido. A crítica mais dura sustenta que não seria coerente denunciar o sistema político e, simultaneamente, prestar homenagens públicas a personalidades associadas à comunicação social estatal.
Entretanto, é necessário distinguir a crítica política de um facto comprovado. Não há, nas fontes consultadas, elementos que permitam concluir que a mensagem de Navita Ngolo represente uma mudança da posição institucional da UNITA sobre a TPA, o Executivo ou a liberdade de imprensa.
Aliás, a actividade parlamentar recente do partido aponta para uma linha de fiscalização e contestação ao Governo. Em Agosto, o Grupo Parlamentar anunciou requerimentos, reclamações, uma interpelação e um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito relacionado com a UNITEL, além de iniciativas sobre prisões, concursos públicos, sinistralidade rodoviária e cheias em Benguela.
Em Abril, Navita Ngolo acusou o Executivo de falta de transparência e criticou a utilização de ajustes directos na contratação pública, enquanto em Março defendeu maior descentralização administrativa e a implementação efectiva das autarquias locais.
O episódio com Ernesto Bartolomeu coloca, por isso, uma questão essencialmente política: até onde pode ir a cordialidade institucional ou pessoal entre adversários políticos sem ser interpretada como contradição pelos respectivos eleitores e militantes?
A controvérsia também reacende o debate sobre o papel da TPA no espaço político angolano. Para sectores da oposição, a televisão pública tem sido alvo de críticas quanto ao tratamento dado às forças políticas. Já os defensores da estação rejeitam a ideia de que toda a sua actividade jornalística possa ser reduzida à propaganda governamental.
No centro da discussão está agora Navita Ngolo. A líder parlamentar da UNITA terá de conviver com duas imagens públicas que alguns críticos consideram difíceis de conciliar: de um lado, a dirigente que, na Assembleia Nacional, denuncia aquilo que considera limitações à democracia, à fiscalização parlamentar e à liberdade; do outro, a política que decidiu manifestar publicamente consideração por um dos rostos mais conhecidos da televisão pública.
O episódio não altera, por si só, a posição oficial do Grupo Parlamentar da UNITA. Mas abriu uma nova frente de debate sobre coerência política, relações institucionais e a fronteira entre cordialidade pessoal e posicionamento político.
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Romão de Jesus
Redactor do Elite Post · 23 de Setembro de 2026
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