Ex-agente da secreta revela que mais de 20 drones terão sobrevoado a zona onde decorria a conferência de imprensa de Higino Carneiro, enquanto a energia eléctrica foi interrompida pela ENDE
A conferência de imprensa convocada por Higino Carneiro para abordar o processo da sua candidatura à liderança do MPLA ficou marcada por uma sucessão de acontecimentos que levantam interrogações sobre as condições em que decorreu a iniciativa.
Segundo informações divulgadas pelo portal A Denúncia, mais de 20 drones terão sobrevoado a zona onde decorria a conferência de imprensa do general na reforma, num episódio que, a confirmar-se, acrescenta uma nova dimensão ao ambiente de tensão que envolve a disputa interna pela liderança do partido.
A publicação refere ainda que a energia eléctrica terá sido interrompida pela Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE) justamente durante o período em que decorria a conferência. Até ao momento, não foi apresentada uma explicação pública que permita estabelecer se a interrupção teve ou não alguma relação com o evento.
Outro facto que chamou a atenção foi a ausência dos principais órgãos públicos de comunicação social. TPA, RNA, Jornal de Angola e Angop, entre outros, não marcaram presença na conferência, segundo relatos publicados após o encontro. A ausência foi também noticiada pelo Imparcial Press, que refere que nenhum dos principais órgãos públicos e vários privados enviou equipas para acompanhar a iniciativa.
A combinação destes acontecimentos abre espaço para perguntas que permanecem sem resposta: tratou-se de simples coincidência? Houve falta de interesse jornalístico? Ou estarão em causa outros factores relacionados com a crescente disputa interna no MPLA?
A questão ganha particular relevância porque Higino Carneiro não realizou uma actividade partidária qualquer. O general convocou a imprensa para falar publicamente sobre a sua candidatura à liderança do MPLA, depois de a sua candidatura ter sido considerada inválida pela Subcomissão de Candidaturas e de o Tribunal Constitucional ter rejeitado a providência cautelar apresentada pela sua equipa.
Durante a conferência, Higino Carneiro reafirmou que não pretende abandonar a disputa e defendeu maior abertura à pluralidade interna no partido. O pré-candidato questionou publicamente se o MPLA está preparado para aceitar a existência de diferentes candidaturas e opiniões no processo de sucessão.
O episódio ocorre, entretanto, poucas horas depois de João Lourenço ter discursado na 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, onde o Presidente angolano defendeu a resolução de conflitos através do diálogo, da cooperação e do respeito pelo Direito.
Na tribuna da ONU, João Lourenço afirmou que os líderes políticos e governantes serão avaliados pela capacidade de “substituir a confrontação pelo diálogo, a competição predatória pela cooperação, a exclusão pela solidariedade e a força das armas pela força do Direito”.
É precisamente nesse contraste que surgem as interrogações sobre o episódio envolvendo Higino Carneiro.
Enquanto, perante a comunidade internacional, Angola apresenta o diálogo, a inclusão e o Direito como instrumentos fundamentais para a resolução de conflitos, dentro do principal partido político do país acumulam-se sinais de tensão em torno da sucessão presidencial do MPLA.
Não significa, contudo, que os episódios registados na conferência sejam necessariamente coordenados ou tenham uma relação causal entre si. A presença dos drones, a interrupção da energia e a ausência dos órgãos públicos carecem de explicações e confirmação independente antes de se poder estabelecer qualquer ligação entre os acontecimentos.
Mas a pergunta política permanece: até que ponto os princípios defendidos por Angola na arena internacional, diálogo, pluralidade, solidariedade e força do Direito, devem também orientar os processos de disputa e convivência dentro das organizações políticas nacionais?
No caso do MPLA, o IX Congresso Ordinário está marcado para 9 e 10 de Dezembro, num processo de sucessão que já colocou em evidência divergências internas e diferentes interpretações sobre a abertura à pluralidade de candidaturas.
A conferência de Higino Carneiro, por isso, terminou sem dissipar as dúvidas. Pelo contrário: entre drones no céu, uma interrupção de energia e o silêncio dos principais órgãos públicos de comunicação social, ficaram no ar perguntas que aguardam respostas oficiais.
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Romão de Jesus
Redactor do Elite Post · 23 de Setembro de 2026
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