Sonangol, Endiama e Sodiam apresentam resultados positivos, mas desconseguem explicar desaparecimento misterioso de milhões, alertam auditores
As empresas públicas Sonangol, Endiama e Sodiam encerraram 2025 com resultados positivos, mas os números apresentados nos balanços não escaparam ao escrutínio dos auditores independentes, que mantiveram reservas sobre várias rubricas financeiras e levantaram dúvidas quanto à solidez de activos e investimentos de valor relevante.
Apesar dos resultados favoráveis, as demonstrações financeiras das três principais empresas públicas ligadas ao sector dos recursos minerais e dos petróleos continuam a carregar zonas cinzentas que os relatórios de auditoria não conseguiram dissipar.
Em causa estão investimentos cuja capacidade de gerar retorno não foi devidamente demonstrada, activos que permanecem registados sem evidências claras de benefícios económicos futuros e valores contabilísticos que não puderam ser integralmente confirmados.
As reservas dos auditores abrangem diferentes áreas, desde investimentos financeiros e activos corpóreos até contas a receber e a pagar. Em determinados casos, a documentação disponibilizada pelas empresas revelou-se insuficiente para comprovar a existência, valorização ou efectiva recuperabilidade dos montantes inscritos nos balanços.
O problema ganha maior dimensão por se tratar de empresas estratégicas do Estado, responsáveis por sectores que movimentam alguns dos maiores volumes financeiros da economia angolana. A existência de resultados positivos, por si só, não elimina as interrogações levantadas pelos auditores sobre a qualidade e a sustentabilidade de parte desses activos.
Entre as preocupações está precisamente a possibilidade de determinados investimentos e activos estarem sobrevalorizados ou não apresentarem condições suficientes para justificar os valores pelos quais continuam registados.
Quando a recuperabilidade de um investimento não pode ser demonstrada ou quando um activo deixa de produzir benefícios económicos, a questão deixa de ser meramente contabilística e passa a envolver a qualidade da gestão dos recursos públicos.
Também as contas a receber e a pagar apresentam divergências que exigiram ressalvas. Há valores cuja confirmação documental não foi possível obter nos procedimentos de auditoria, situação que fragiliza a leitura dos balanços e deixa em aberto questões sobre a efectiva existência ou recuperação de determinados montantes.
A situação coloca pressão sobre a administração das empresas e sobre os mecanismos de supervisão do Estado. Resultados positivos podem traduzir capacidade operacional e geração de receitas, mas não são suficientes para afastar dúvidas quando os próprios auditores alertam para limitações na confirmação de activos, investimentos e direitos registados.
O cenário expõe, assim, uma contradição relevante: as empresas públicas apresentam lucros, mas continuam a carregar nos seus balanços rubricas cuja consistência financeira não foi integralmente validada.
Mais do que saber quanto Sonangol, Endiama e Sodiam lucraram em 2025, os relatórios de auditoria levantam uma questão mais incómoda: quanto dos valores inscritos nos seus balanços representa efectivamente património recuperável e quanto permanece sustentado apenas por registos contabilísticos ainda sem comprovação suficiente?
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Romão de Jesus
Redactor do Elite Post · 17 de Agosto de 2026
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