O Terrível Crime do Deputado Sapinala - Sousa Jamba
Adriano Sapinala voltou a pecar. E, desta vez, parece ter ido longe demais. O deputado da UNITA, nascido no Cuando Cubango, em território então controlado pela própria UNITA, carrega há muito uma suspeita gravíssima aos olhos dos vigilantes da pureza revolucionária: a de ser demasiado burguês.
Há, aliás, um pequeno cliché que reaparece nestas discussões: um cavalheiro nascido em Luanda, possuidor daquela superioridade que se adquire sem estudo, sem viagem e sem esforço, resolveu diminuí-lo, dizendo que ele tinha «nascido no mato». É uma frase magnífica, porque consegue, em quatro palavras, substituir uma biografia inteira por vegetação.
Nascer no mato é, ficamos assim a saber, uma categoria sociológica. Não importa quem eram os pais, que livros havia em casa, que profissão exerciam os avós: basta uma árvore suficientemente próxima da maternidade e o assunto fica resolvido. Nasceu no mato; logo, veio do mato. A lógica é tão impecável que alguém nascido num hospital junto ao mar deverá, suponho, ser considerado peixe.
Conheço muitas pessoas nascidas no interior profundo de Angola durante aqueles anos que nada tinham de rústicas, no sentido insultuoso que se pretende dar à palavra: estatísticos, médicos, gestores bancários, académicos, empresários brilhantes. Nasceram, é certo, em lugares que certo imaginário classificaria como mato; mas não nasceram intelectualmente no mato, pois pertenciam a famílias que possuíam aquilo a que antigamente se chamava valores de classe média: educação, disciplina, poupança, autocontrolo e aquela virtude hoje quase revolucionária chamada gratificação adiada. Estudava-se porque havia um exame; guardava-se dinheiro porque havia filhos; comprava-se um livro porque havia uma vida inteira para compreender.
Reconhecer isto obriga a admitir uma realidade inconveniente: existia, dentro da própria elite da UNITA, um segmento social e intelectualmente sofisticado, que transportava hábitos e códigos culturais reconhecíveis como pertencentes a uma classe média africana instruída. Isto estraga uma caricatura muito querida, pois é bem mais confortável imaginar aquelas populações como uma multidão de atrasados e poeirentos, à espera de que alguém lhes explicasse para que servia um garfo. A realidade, infelizmente, tem a desagradável mania de ser mais complicada; e a própria genealogia de Sapinala não cabe facilmente nessa fotografia.
Isto não o torna melhor político, nem pior: a genealogia não vota no Parlamento. Torna apenas um pouco cómica a tentativa de explicar um homem inteiro através de uma frase sobre árvores.
Há pecados que se perdoam, outros que exigem uma Comissão Parlamentar de Inquérito e há, finalmente, aqueles para os quais nem a Constituição imaginou remédio: comer salada, por exemplo. Há alguns anos, Sapinala foi fotografado diante de uma salada sem a indispensável rusticidade patriótica, talvez rúcula, talvez um tomate excessivamente vermelho, e a indignação foi imediata: um homem do povo pode comer couve, pode comer mandioca, mas uma salada sofisticada já sugere contas em Genebra.
Pensava eu que a lição estava aprendida. Enganei-me: agora apareceu a jogar golfe. Nem sequer futebol, que perdoa tudo, pois vinte e dois homens a correr atrás de uma bola são considerados proletários, ao passo que um homem a caminhar calmamente atrás da sua passa, por alguma razão obscura, a representar o capitalismo internacional.
Descobriu-se, então, que jogar golfe é incompatível com representar os pobres, como se um deputado devesse representar o sofrimento nacional não apenas no Parlamento, mas também no vestuário, na alimentação e na expressão facial: acordar preocupado, almoçar modestamente, contemplar uma estrada esburacada e, ao domingo, sorrir com moderação.
Há aqui uma fascinante concepção de democracia: elegemos alguém para melhorar a vida do povo e exigimos, depois, que demonstre solidariedade impedindo rigorosamente que a sua própria vida melhore. A pobreza deixa, assim, de ser um problema a combater e transforma-se num uniforme moral; e a nossa indignação possui critérios estéticos extraordinariamente selectivos, capazes de tolerar arrogância, mendacidade e fortunas gastas em caprichos, desde que tudo isso se vista de humildade. O problema, afinal, não é a burguesia: é a burguesia visível.
A pergunta verdadeiramente importante, se Sapinala estuda os dossiers, fiscaliza o Executivo e defende os seus eleitores, teria a desvantagem de exigir factos. É bem mais divertido examinar fotografias, que dispensam investigação e pensamento, bastando um taco e uma imaginação suficientemente indignada.
Talvez Sapinala devesse apenas pedir desculpa. Não por ter nascido no Cuando Cubango, nem por comer salada, nem sequer por jogar golfe, mas por uma infracção bem mais grave: ter recusado representar o papel que alguns lhe escreveram. Esperavam o homem do mato; apareceu um deputado com tacos de golfe.
E há preconceitos que suportam melhor uma derrota eleitoral do que uma surpresa social.
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Romão de Jesus
Redactor do Elite Post · 24 de Agosto de 2026
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