Escassez de combustível registada em todo o país estará ligada a burocracia na Sonangol, avança Valor Económico
A escassez de combustível que se registou nos últimos dias em diferentes pontos do país poderá estar associada a constrangimentos burocráticos ligados ao processo de descarga de produtos refinados, avançou o jornal Valor Económico, citando fontes relacionadas com a cadeia de abastecimento.
De acordo com a publicação, o problema começou a ganhar dimensão depois de atrasos no processo de descarga de navios petroleiros que chegaram recentemente ao Porto de Luanda transportando gasolina e gasóleo destinados ao mercado nacional.
Segundo o apurado pelo semanário, três petroleiros atracaram no porto com carregamentos de combustível, mas o início das operações de descarga não ocorreu dentro dos prazos habituais. Até ao fecho da edição do jornal, apenas um dos navios havia concluído integralmente a descarga, enquanto os restantes continuavam em processo operacional.
Fontes citadas pelo Valor Económico apontam que a principal razão para os atrasos esteve relacionada com procedimentos administrativos e financeiros associados à Sonangol. Entre os mecanismos mencionados está o tratamento documental e a necessidade de validações ligadas às cartas de crédito utilizadas na importação dos derivados.
“Normalmente, o petroleiro vem com carta de crédito e deve necessariamente passar pelo banco após a confirmação da chegada do navio”, explicou uma das fontes ouvidas pela publicação, apontando excesso de burocracia como um dos factores que terão condicionado a rapidez da disponibilização do combustível ao mercado.
Enquanto isso, os efeitos começaram a ser sentidos em praticamente todo o território nacional.
Nos últimos dias multiplicaram-se relatos de longas filas em postos de abastecimento, envolvendo viaturas ligeiras, pesadas, motorizadas e até cidadãos transportando recipientes para armazenamento de combustível. Em várias localidades, o cenário provocou alterações na dinâmica dos transportes e impactou directamente o custo da mobilidade.
Em alguns pontos do país, operadores de táxi e transportadores ajustaram os preços das corridas em consequência da dificuldade de abastecimento, criando pressão adicional sobre os custos suportados pela população.
Apesar do cenário observado no terreno, a Sonangol Distribuição e Comercialização negou a existência de uma escassez efectiva de combustível.
Num comunicado citado pelo Valor Económico, a empresa sustentou que as enchentes verificadas em diversos postos não resultam de falta de produto, mas sim do aumento da procura provocado por especulações relacionadas com uma eventual subida dos preços.
A petrolífera estatal garantiu igualmente que existem quantidades suficientes de combustível para responder às necessidades do país e informou estar em curso um plano de estabilização da rede nacional de abastecimento em coordenação com os diferentes operadores do sector.
Entretanto, o Valor Económico recorda que já havia alertado anteriormente para o risco de constrangimentos entre os meses de Abril e Maio, apontando dificuldades ligadas à morosidade operacional dos navios e às limitações de armazenamento existentes no país.
Especialistas citados pela publicação defendem que o actual episódio volta a evidenciar fragilidades estruturais no sistema nacional de abastecimento de combustíveis.
Embora, em média, atracem semanalmente vários navios petroleiros em Angola, analistas consideram que a ausência de reservas estratégicas de grande dimensão mantém o país vulnerável a atrasos logísticos e a choques externos.
Também é levantada a questão da capacidade interna de produção. Apesar dos investimentos realizados na Refinaria de Luanda para aumentar o volume de refinação, os níveis actuais continuam sem responder plenamente à procura interna.
Outro elemento destacado é o Terminal Oceânico da Barra do Dande, concebido para reforçar a capacidade nacional de armazenamento de derivados, mas que, segundo a análise publicada, ainda não elimina totalmente o risco de constrangimentos quando ocorrem atrasos na chegada ou descarga dos navios.
Num país produtor de petróleo, o episódio voltou a reacender o debate sobre a eficiência da cadeia de abastecimento e sobre a capacidade de transformar produção petrolífera em disponibilidade regular de combustível para os consumidores finais.
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Romão de Jesus
Redactor do Elite Post · 12 de Junho de 2026
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